Um peão, três títulos

No ano de 2015, em Marau, ocorreu pela primeira vez o concurso da Categoria Piá, no Entrevero Cultural de Peões – fase estadual. Na época, Leônidas participou desse concurso histórico e sagrou-se 2º Piá Farroupilha do RS. Em 2021, conquistou o título de 2º Guri Farroupilha do RS.

Dez anos depois do primeiro título estadual, em abril deste ano – 2025, Leônidas conquista o título máximo e torna-se Peão Farroupilha do RS – marcando a história do Entrevero Cultural de Peões. Leônidas Augusto da Silva, Peão Farroupilha do RS 2025/2026, é o primeiro a realizar o feito de representar o Rio Grande do Sul nas três categorias: piá, guri e peão.

Confira a entrevista concedida pelo peão Leônidas para o Cartilha dos Galpões.

“Minha história no tradicionalismo começou efetivamente aos 3 anos. Antes do meu nascimento, minha mãe havia sido prenda de faixa, na década de 80, no CTG A Voz dos Pampas de Santo Ângelo. Contudo, com a mudança para Horizontina, ela e meu pai participavam esporadicamente de atividades tradicionalistas. Nos meus primeiros anos de vida, meu dindo, guasqueiro e participante de cavalgadas, aos poucos tentava me inserir neste meio. Desde pequeno, a cultura gaúcha estava presente, mas, a trajetória de fato começou por influência da professora Ana Caroline Vaz no ambiente escolar. Além de professora, ela era instrutora do grupo de danças chupetinha do CTG Carreteiros de Horizonte, de Horizontina. Foi ela que me levou aos ensaios e me apresentou este mundo. Depois, com 6 anos, iniciei minha participação nos entreveros, pois dizia aos meus pais que queria declamar e queria um crachá. Fui piazito do CTG Carreteiros de Horizonte em duas gestões (2011/2012 e 2012/2013). Depois, nas categorias piá e guri, representando o CTG Carreteiros de Horizonte e a 20ª Região Tradicionalista, fui 2º Piá Farroupilha do Rio Grande do Sul na gestão 2015/2016 (primeira gestão de piás da história do Entrevero Cultural de Peões do Rio Grande do Sul) e 2º Guri Farroupilha do Rio Grande do Sul 2021/2022). A entidade e a região foram fundamentais nestas conquistas, ao acreditarem no meu potencial e prestarem todo suporte para a concretização destes sonhos. Muito do sou que hoje deve-se aos valores e ensinamentos que tive e que foram essenciais para minha formação enquanto tradicionalista e ser humano.
No ano de 2022, em decorrência dos estudos, firmei morada no coração do Rio Grande para cursar Engenharia Civil na Universidade Federal de Santa Maria. Com esta mudança e com a vontade de seguir atuante e participativo no movimento, busquei uma nova entidade para chamar de “casa”. Assim, fui acolhido pelo CPF Piá do Sul. Desde o primeiro momento e em todos os departamentos, fui tratado como um filho. A receptividade e hospitalidade fizeram logo florescer dentro de mim a alma piazista. Ainda no primeiro ano de casa, fui Diretor do Departamento Jovem, Vice-Campeão do Juvenart e tive a honra de pisar no palco sagrado do ENART e realizar este sonho de infância representando o piá. Nestes últimos dias, representando o CPF Piá do Sul e a 13ª Região Tradicionalista, conquistei o título de Peão Farroupilha do Rio Grande do Sul 2025/2026, tornando realidade o sonho daquele pequeno piá.”

Como foi a preparação para o concurso estadual?
“A preparação foi intensa e lotada de desafios. Busquei ao máximo conciliar minhas atividades diárias de estudo do curso de Engenharia Civil e pesquisa no Grupo de Estudos e Pesquisas em Pavimentação e Segurança Viária com a preparação para o Entrevero. Além de tudo, outra dificuldade que superei foi a distância da família. Diferente dos demais concursos, neste eu estava longe de casa, sem meus pais para me socorrer nos meus apertos. Embora distantes, sentia eles presentes comigo e essa força foi fundamental para me manter firme no propósito.
Por mais que a família de sangue não estivesse presente, as minhas “famílias de coração” nunca soltaram a minha mão aqui em Santa Maria, me protegendo e guiando. O título de Peão do Rio Grande é fruto do trabalho e dedicação de muitas maõs. Dessa forma, busquei nesta preparação o auxílio dos melhores, daqueles que abraçariam de corpo e alma este desafio.
Agradeço a família Feltrim (Vó Lili, Tia Rose e Madrinha Ana), formada por pessoas que levo para além do movimento e que são meu esteio. Obrigado por estarem sempre disponíveis para os momentos de descontração, para prosearmos enquanto tomamos um mate e por me auxiliarem e blindarem em todos as etapas desta preparação. Ainda, a família Piá do Sul foi fundamental e deles busquei a força e coragem para bem representar esta casa, encontrando dentro de mim a alma do nosso piá imortal. Outra casa e família que agradeço e expresso minha profunda gratidão é a AT Estância do Minuano, na pessoa do meu padrinho Gustavo Silveira, que abriu as portas da estância para que eu realizasse meus treinamentos. Com a rotina corrida, restavam apenas as primeiras horas da manhã para treinar as provas campeiras. Assim, íamos, meu padrinho, meu amigo Bruno Moreira e eu, diariamente, das 7 às 9 horas manhã, treinar. Sou muito grato a eles por todos os ensinamentos e, principalmente, por ter feito do meu sonho o seu sonho também.
Na parte artística, agradeço imensamente a minha prenda Carolina Souto, que me acompanhou nas fases regional e estadual, sempre estando disposta a ensaiarmos, mesmo após longos e intensos ensaios da invernada adulta. Aos meus amigos Pedro Mota e Rafaela Pivotto, por disporem de seu tempo para montarmos nossa dança de salão, que fez o povo de pé bater palmas no ritmo do chote enquanto dançávamos. Ao meu musical (Beto e Kayke Mello), por serem essência e fazerem ecoar com suas vozes a alma do Piá do Sul. Ao Kayke, estendo ainda minha gratidão pelo acompanhamento, desde janeiro, na declamação. Gracias pelos ensinamentos das aulas e por fazer que este peão visse a arte de declamar com outros olhos.
Na preparação para a prova escrita, agradeço a tia Zaida Motta, que me acompanha nos estudos desde guri. Obrigado por estar sempre disponível para esclarecer minhas dúvidas, pela receptividade em sua casa em São Gabriel e por, de fato, me tratar como um filho.
Por fim, mas não menos importante, trago a importância da minha psicóloga Alana Balardin nesta preparação. Com o tempo, fui entendendo o quanto o Entrevero exige dos concorrentes também uma preparação e blindagem mental e emocional. Obrigado, Alana, por desde julho do ano passado me auxiliar e por me mostrar o quão importante era o resgate do Leônidas piá para que o sonho de ser Peão torna-se realidade.
Como disse anteriormente, este título não vem sozinho, é necessária a dedicação e entrega de várias pessoas para tornar este sonho realidade. Graças a Deus, estive rodeado pelos melhores.”

“Enquanto Peão do Rio Grande do Sul, tenho a convicção de que o primeiro e principal objetivo é criar, junto com a 1ª Prenda, um ambiente conciliador, familiar e de muita união entre todos os peões e prendas do Estado, bem como com seus responsáveis. Estando todos alinhados em pensamento e unidos por um mesmo propósito, trilharemos um caminho de muita luz e realizaremos uma excelente gestão.

Outro ponto que considero fundamental e que deve ser trabalhado é a valorização das crianças. Como Peão – e tendo sido Piá do Rio Grande – sei da importância que todo e qualquer incentivo e forma de tratamento nessa etapa de crescimento e desenvolvimento têm no impacto da permanência do jovem dentro do movimento. Assim, devemos, enquanto gestão, atuar junto às lideranças do tradicionalismo na busca pela valorização da nossa base. Ao fortalecermos esse elo geracional, estaremos contribuindo para a permanência da criança no meio tradicionalista e para a formação de novas lideranças jovens dentro do movimento.

Como objetivo pessoal, que abordei em minha explanação oral no Entrevero, tenho o desejo de criar, junto com os demais Peões Estaduais e a Vice-Presidência de Cultura do MTG, um e-book que agregue todas as pesquisas de campo dos participantes do Entrevero Estadual nas categorias Guri e Peão. Sendo entusiasta em pesquisas – muito por influência de minha entidade, o Centro de Pesquisas Folclóricas Piá do Sul – vejo cada pesquisa como um rico material literário, com grande potencial de expansão. Cada pesquisa de campo carrega consigo o empenho e a dedicação de cada Peão, bem como expõe características regionais e locais por meio dos relatos dos entrevistados. Dessa forma, com essa publicação, contribuiremos para a divulgação e valorização do nosso regionalismo e da identidade campeira, alicerçados em nossa medicina campeira.

Por fim, reforço meu desejo e minha vontade de auxiliar todos os tradicionalistas, colocando-me sempre à disposição. Podem contar com este Peão para tudo o que precisarem.”

“Esse título, para mim, representa a realização de um sonho de piá. Tenho a convicção de que o pequeno Leônidas com 10 anos jamais imaginaria a magnitude do caminho que trilharia. Almejei por muito tempo essa conquista e, nesse processo, muito errei, aprendi e cresci, tanto como pessoa quanto como tradicionalista, mas sempre mantendo minha simplicidade, alegria, jeito leve de ver a vida e gratidão por cada etapa dessa jornada. Tudo o que realizei em Horizontina representando o CTG Carreteiros de Horizonte e a 20ª RT foram essenciais para alcançar essa conquista, agora representando o CPF Piá do Sul e a 13ªRT. O resultado obtido é produto de mais de uma década de empenho e entrega ao nosso movimento.

Assim, esse feito, de ser o primeiro na história a alcançar êxito nas três categorias, simboliza a consciência do Peão que entendeu que o verdadeiro sucesso só é alcançado quando se mantém acesa, dentro de si, a chama da alma de piá, sua essência, seus valores e sua identidade mais pura. Representa, também, o compromisso de honrar o legado de várias gerações de peões que outrora lutaram pela valorização e preservação da nossa cultura.”

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